O Aço

História da Siderurgia

Uma história de quase 500 anos

Os primeiros produtos de ferro produzidos no Brasil datam de 1587, iniciando um ciclo que seria a base do crescimento industrial do País

Quando em 1554 o padre jesuíta José de Anchieta comunica a seus superiores e ao rei de Portugal a existência de depósitos de minérios de ferro no interior da capitania de São Vicente (São Paulo), começa a ser escrita à história da siderurgia brasileira. A primeira iniciativa concreta foi em 1556, quando outro padre jesuíta, Mateus Nogueira, montou uma forja para produzir para a comunidade, anzóis, facas, cunhas, pás e outros complementos, considerados os primeiros artigos de ferro feitos no Brasil.

Ainda assim, 1587 é a data aceita pelos historiadores como a do nascimento da siderurgia brasileira. Naquele ano, em São Vicente, próximo à atual cidade de Sorocaba, Afonso Sardinha construiu duas forjas catalãs, de onde saíram para comercialização os primeiros produtos de ferro feitos no Brasil. Sardinha foi encorajado e parcialmente subsidiado pelo governador geral da capitania, Francisco de Souza. Esse impulso inicial do setor não se manteve por muito tempo com a intensidade que seria desejada.

Com a morte de Sardinha, o interesse pela fundição de ferro decaiu. Até o século seguinte pouco se fez para incrementar esta industria nascente. A produção de ferro continuou em pequena escala, com a construção de várias forjas catalãs no Estado de São Paulo e em Minas Gerais, durante o fim do século XVI e ao longo do século XVII. Entre 1700 e 1756, nas missões jesuítas, em Redução de São João Batista, hoje município de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, fundadas pelo padre austríaco Antonio Sepp, fabricaram-se cravos, ferraduras e utensílios em uma forja catalã. O padre Sepp é considerado, por isso, o pioneiro da siderurgia no Rio Grande do Sul.

A descoberta de ouro no Estado de Minas Gerais, em meados do século XVIII, levou um considerável número de administradores brasileiros a solicitar de Portugal permissão para construir fornos de fundição para a fabricação de equipamentos para atender o trabalho nas minas. A reação de Portugal foi negativa. A criação de uma siderurgia na Colônia contrariava sua política mercantilista. E essa atitude não mudou até fins do século.

Em 1780, o governador da capitania de Minas Gerais, Rodrigo José Menezes, tentou mais uma vez. Solicitou à corte autorização para construir unidades de fundição. O pedido não só foi rejeitado, como deu origem a uma ordem tornando ilegal a existência de fundições e mandando destruir as existentes. Recomendava-se aos administradores coloniais que “voltassem seus interesses para a agricultura e a mineração do ouro”. Era a febre do ouro que tudo absorvia e exigia a dedicação de todos os recursos para o enriquecimento da Corte Portuguesa.

Impulso Real

Com a ascensão de D. João VI ao trono português a política mudou. Em março de 1795, o governador geral do Brasil, Luiz Pinto de Souza, informava aos governadores das capitanias que a fundição de ferros e o estabelecimento de fundições estavam autorizadas.

Em 1800, o coronel Cândido Xavier de Almeida foi convidado pelas autoridades coloniais a viajar com dois especialistas à Sorocaba para estudar a viabilidade de construir uma fundição de ferro nos arredores de Ipanema. O relatório do grupo foi favorável e um ano depois era iniciada a construção de uma indústria de ferro na região.

A chegada da família real ao Brasil em 1808 deu novo impulso a várias indústrias, inclusive a siderúrgica. O príncipe regente ordenou que fossem acelerados os trabalhos de construção da fundição de Sorocaba (Ipanema) e adiantou, ao mesmo tempo, recursos para a construção de um alto forno e forjas de refino no Morro do Pilar, em Minas Gerais.

A usina do Pilar, quando pronta, em 1815, incluía um alto-forno com 8,5 metros de altura e noventa centímetros de largura, diversos fornos de refino e três forjas catalãs, como unidades auxiliares. A maior parte de sua produção era destinada à mineração de Minas Gerais. A usina funcionou ininterruptamente durante toda a década de 1820. Em 1831 foi fechada e seu equipamento vendido em hasta pública. Em seu melhor ano de atividade, 1820, produziu 2.536 arrobas, o equivalente a 38 toneladas.

Embora tenha desempenhado notável função econômica, a operação do primeiro alto-forno brasileiro não teve continuidade. Os historiadores apontam a política comercial de Portugal e seus tratados de comércio com a Inglaterra, cujos produtos siderúrgicos entravam na Colônia por preços muito baixos, como uma das principais dificuldades para a implantação da siderurgia ou de sua sobrevivência naquela época.

Enquanto isso, a construção da Fundição, em Sorocaba, ordenada pelo Príncipe Regente, desenvolvia- se vagarosamente até 1814, quando foi indicado o metalurgista Frederico Guilherme Varnhagem, que já servira em Portugal na mesma especialidade, para administrar o projeto. Em 1817 a usina estava concluída. Mas houve dificuldades de mão-de-obra e só em novembro de 1818, com ajuda de operários locais, realizou-se a primeira corrida de aço em Ipanema.

Com o retorno de Varnhagem para a Europa, em 1821, a Fundição foi fechada e reaberta por várias vezes. Em 1895, o Congresso ordenou seu fechamento definitivamente com uma curiosa observação na Resolução: “desta forma pondo um ponto final a uma operação que quase se estava tornando uma instituição no Brasil”.

Entretanto, a fundição e a fabricação de ferro não desapareceram no País. Ao longo do século XIX foram construídas pequenas forjas para o atendimento de necessidades locais. O acontecimento mais signipart ficativo no final daquele século, para o futuro desenvolvimento da indústria siderúrgica, foi a fundação, em 1876, da Escola de Minas de Ouro Preto, em Minas Gerais, pelo engenheiro francês Henrique Gorceix. A escola formou alguns dos melhores engenheiros do Brasil e propiciou o treinamento de geólogos e metalúrgicos. O interesse dos militares no desenvolvimento da indústria em geral e da siderurgia em particular resultou, no século seguinte, na criação da Escola de Engenharia do Exército, em 1930. Muitos dos graduados nesta escola estavam entre os líderes da industria siderúrgica e de seu desenvolvimento, desde a década de 30 até 1960.

Iniciativa privada

Observa-se que ao longo de sua história as usinas siderúrgicas estiveram sempre nas mãos da iniciativa privada embora jamais faltasse, por parte dos governos, quer nos tempos coloniais, ou durante o império e a república, acentuado interesse e incentivo aos empreendimentos siderúrgicos. No final da década de 30, com o panorama mundial que levaria a eclosão da Segunda Guerra Mundial, cresce o interesse do governo na construção de uma grande usina siderúrgica integrada.

Não só pelas tendências do governo da época, como pelo fato dos capitais privados, especialmente estrangeiros, não se mostrarem capazes ou suficientemente interessados na construção de usinas siderúrgicas, o então presidente Getúlio Vargas resolveu construí-la, não sem antes esgotar todas as tentativas de despertar o interesse do capital privado. Como a guerra já era praticamente uma realidade, o governo americano acabou se interessando pelo projeto brasileiro.

Em julho de 1940, uma comissão veio de Washington para tratar do assunto. Em setembro do mesmo ano, o Export Import Bank concedeu um crédito de US$20 milhões para financiar o projeto siderúrgico brasileiro.

Nasce o parque siderúrgico nacional

A inauguração da CSN,hoje o maior complexo siderúrgico da América Latina, abriu espaço para impulsionar definitivamente o setor


Em abril de 1946 foi inaugurada a usina da Companhia Siderúrgica Nacional, a maior usina integrada produtora de aço a coque da América Latina. A produção e coque foi iniciada no Brasil em abril e, em junho daquele mesmo, ano os altos fornos e a aciaria começaram a funcionar. As laminações esperaram mais um pouco. Foram concluídas no final de 1947 e começaram a funcionar no ano seguinte.

O crescimento industrial no período posterior à Segunda Guerra e, especialmente, a ênfase na integração vertical do complexo industrial brasileiro no decênio de 50, levou à expansão das instalações existentes para a produção de aço e à criação de um grande número de empresas, tanto privadas como estatais.

A CSN, cuja capacidade era de 270 mil toneladas de lingotes no início sua produção em 1946, experimentou sucessivas expansões, até atingir, em 1965, 1.400 mil toneladas, aproximadamente. Hoje a CSN é o mais abrangente complexo siderúrgico integrado da América Latina. Líder no setor siderúrgico brasileiro, a empresa tem capacidade de produção de 5,3 milhões de toneladas anuais de aço bruto, graças à combinação de minas próprias, usina, ferrovias e portos para apoiar suas operações.

Privatizada em 1993, tornou-se altamente competitiva, devido a excelência de seu corpo técnico e gerencial, auto-suficiência em minério de ferro e fundentes (calcário e dolomita), integração de suas atividades produtivas e ao resultado dos investimentos efetuados ao longo dos últimos anos em novos equipamentos, energia e logística.

Cosipa – Entusiasmo impulsiona o setor

Marco não só da siderurgia, mas do próprio processo de industrialização do País, a CSN logo ganharia a companhia de outras empresas no setor, como a Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), criada em 1953.
Corria o ano de 1951 e um grupo de engenheiros do Instituto de Engenharia de São Paulo (IESP), entre eles Plínio de Queiróz, após visita à CSN, no Rio de Janeiro, lança a idéia de construir, em São Paulo, uma empresa siderúrgica do porte da estatal estabelecida na então capital da República.

A iniciativa logo recebeu o apoio moral, técnico e financeiro de personalidades e de poderosos grupos financeiros de São Paulo e seu principal mentor, o engenheiro Plínio de Queiróz, acabaria sendo o primeiro presidente da Companhia, localizada estrategicamente na cidade de Piaçagüera, na Baixada Santista.

Com uma inegável vocação para atender ao mercado internacional, a Companhia Siderúrgica Paulista, uma das quatro siderúrgicas que produzem aços planos no Brasil, atualmente destina 40% de sua produção aos compradores estrangeiros. Para atingir a sólida performance empresarial obtida em 2002 (3,9 milhões de toneladas de aço e um faturamento bruto de R$3,4 bilhões) a Cosipa, hoje controlada pela Usiminas, implantou um dos mais expressivos programas de reestruturação da siderurgia mundial: cerca de US$1 bilhão foram gastos com a recuperação de parte de seu parque industrial, atualização tecnológica e o resgate de seu passivo ambiental.



Usiminas – Anos dourados da economia

Impulsionada pelo governo do estado de Minas Gerais e pelo desejo histórico dos mineiros de ter no Vale do Rio Doce uma usina moderna e integrada, a Usiminas, criada em 1956, é outra gigante do setor que surgiu nos anos 50. Originalmente, a companhia teve entre seus acionários o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (atual BNDES) com 26,64%; o governo de Minas, 23,95%; a Companhia Vale do Rio Doce, 9%; a CSN, 1,52% e grupos privados, com apenas 1%. Coube ao grupo japonês Nippon- Kabushiki Kaisha fornecer a maior parte do equipamento e supervisionar sua construção, concluída em 1962. Apenas quatro anos depois, em 1966, a empresa já produzia 500 mil ton de lingotes de aço e 390 mil ton. De laminados planos.

Grande fornecedora do insumo básico usado na ativação da indústria pesada nacional – naval, automobilística e de construção civil – nos chamados anos dourados da economia brasileira, na década de 70, a Usiminas alcançaria, em 1971, a notável capacidade de produção de 1 milhão de toneladas. Com a filosofia de diversificar para alcançar uma sinergia no sistema produtivo Usiminas/Cosipa, a empresa, ao comemorar, no ano passado, os 40 anos de operação de sua usina, festejou também a atualização tecnológica que elevou sua capacidade produtiva para 4,7 milhões de toneladas.


Belgo – Projeção no mercado externo

Controladora de um dos principais grupos privados do País, a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, fundada em 1921, é resultado da aplicação de capitais belgas no País, após a visita do Rei Alberto, da Bélgica, ao Brasil, um ano antes. A associação do consórcio “Aciéres Reuniés de Burbach” com a então Usina Siderúrgica Mineira, com um capital inicial de CR$15 milhões, viria a ser um dos mais antigos capítulos da história da siderurgia brasileira. Naquele ano, a construção de um alto-forno a carvão de madeira, na localidade de Rio Acima, sob a direção do engenheiro José Gerspacher, deu início às atividades de um grupo que hoje opera quatro unidades próprias – em João Monlevade e Sabará, MG; Vitória,ES e Piracicaba, SP.

Com capacidade instalada para produzir 4,3 milhões de toneladas/ano de aços longos sob a forma de laminados e 1,4 milhão de toneladas de trefilados, a Belgo-Mineira exerce ainda a função de holding industrial e detém participações em controladas como a Itaúna Siderúrgica Ltda, em Itaúna, Minas Gerais, e a Acindar – Indústria Argentina de Aceros, a principal produtora de aços longos da Argentina. Líder brasileira na fabricação de fio-máquina e de arames comerciais e industriais, a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira desde o ano passado integra o maior grupo siderúrgico do mundo, a Arcelor, resultado da união da Arbed (Luxemburgo), Usinor (França) e Aceralia (Espanha). (França) e Aceralia (Espanha).


CST – A importância da Infra-estrutura

Maior produtora mundial de placas de aço, a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), instalada na região da Grande Vitória, no Espírito Santo, entre os municípios de serra e Vitória, destaca-se não só por sua localização estratégica, na costa da região sudeste, mas pela formidável infra-estrutura de que dispõe: uma bem aparelhada malha rodo-ferroviária e o complexo portuário dos Porto de Praia Mole, próximo à usina e com calado para receber navios de grande porte. Além de receber diretamente a matéria prima e escoar sua produção, a usina é totalmente integrada e gera toda a energia que consome a partir de gases do processo produtivo.

Outra indústria do setor a ocupar lugar de destaque no ranking das siderúrgicas e da indústria nacional, a “Companhia” (como é carinhosamente chamada na região) foi criada em 1976 e começou a operar em 1983 para “produzir e comercializar produtos de ferro e aço, principalmente placas semi-acabadas destinadas à exportação”.

Controlada atualmente pela Vale do Rio Doce, Acesita – Aços Especiais Itabira, um grupo de empresas japonesas e a Califórnia Steel Industries- CSI (EUA), a Companhia Siderúrgica Tubarão, privatizada em 1992, vem diversificando suas atividades.


Gerdau – Tradição e desenvolvimento

Maior produtor de aços longos no continente americano, o Grupo Gerdau tem usinas siderúrgicas distribuídas no Brasil, Argentina, Canadá, Chile, Estados Unidos e Uruguai. Com a formidável capacidade instalada (total) de produzir 14,4 milhões de toneladas de aço por ano, sua trajetória se confunde com a própria história do desenvolvimento brasileiro. Participando da economia gaúcha há mais de cem anos, o grupo começou a operar com a Fábrica de Pregos Pontas de Paris, na cidade de Porto Alegre, no longínquo ano de 1901. Instalada na rua Voluntários da Pátria, a Fábrica foi, ao longo de décadas, uma das mais tradicionais e prósperas do corredor industrial e comercial que margeava o estuário do Rio Guaíba.

Naquela que viria a ser a mais importante decisão tomada por seus dirigentes, o grupo decide, em 1948, assumir o controle da Siderúrgica Riograndense, em Sapucaia do Sul, para superar as dificuldades relacionadas ao fornecimento de matéria- prima. Bem sucedida, a expansão do negócio, de metalurgia em direção à siderurgia, elevou substancialmente o potencial de crescimento futuro da Gerdau, abriu uma nova frente de negócio e deu início ao período mais fecundo de sua história. Ao completar 100 anos, em 2001, a Gerdau, 24ª siderúrgica do mundo, com uma produção de 7,1 milhões de toneladas e onze mil colaboradores, no Brasil e no exterior, coroava uma trajetória iniciada em 1901 pelos 40 trabalhadores da Fábrica de Pregos Pontas de Paris.

Mudança radical

A privatização do setor mudou significativamente o perfil das empresas siderúrgicas tornando-as modernas e competitivas

O parque siderúrgico hoje é composto de 26 usinas administradas por 11 empresas, localizadas em nove estados da Federação que produziram 29,9 milhões de toneladas de aço em 2002. Este setor, que ocupa o oitavo lugar no mundo em produção, tem condições de atender a 95% da demanda interna de produtos siderúrgicos, com padrões de qualidade internacional. Exporta para mais de 60 países, gerando uma receita anual superior a US$2,5 bilhões, o que coloca o setor entre os maiores geradores de saldo comercial brasileiro. O parque siderúrgico gera cerca de 70 mil empregos diretos e 280 mil indiretos.

O programa de privatização, iniciado pelo governo em 1992, trouxe ao setor expressivo fluxo de capitais, em composições acionárias. Assim, muitas empresas produtoras passaram a integrar grupos industriais ou financeiros, cujos interesses na siderurgia se desdobraram para atividades correlatas ou de apoio logístico, com objetivo de alcançar economia de escala e competitividade.

As usinas brasileiras se classificam na produção de aço da seguinte forma:
• Semi-acabados (placas, blocos e tarugos).
• Planos comuns (chapas e bobinas).
• Longos comuns (chapas e bobinas).
• Planos de aços especiais (barras, perfis, fio máquina, vergalhões, arames).
• Longos de aços especiais (barras, fio-máquina, arames).
• Tubos sem costura.

Com a privatização as empresas iniciaram um amplo programa de modernização de suas instalações, no qual foram investidos mais de US$ 12 bilhões até 2002. Os recursos foram aplicados prioritariamente na modernização e atualização tecnológica, conferindo às usinas altos padrões de qualidade e produtividade, profunda renovação de suas estruturas gerenciais e tecnológicas e das relações com os fornecedores, clientes e com a sociedade.

O que mudou nos últimos anos

-    desde a década de 90, a siderurgia brasileira vem se mantendo entre a 8ª e 9ª posição no ranking mundial;
-    Em 1992, a produtividade representava 220 toneladas/hora/ano e em 2002 o dobro deste valor;
-    De 1990 a 1993 os investimentos alcançaram a média anual de US$ 441 milhões e, em 2002, chegaram a US$ 857 milhões. Para 2003 a meta é atingir US$ 975 milhões;
-    Em 1992, existiam 30 empresas produzindo 23,9 milhões de toneladas de aço por ano. Em 2002 são 11 empresas que operam 26 usinas, em nove estados da Federação;
-    Em 1992, mais de dois terços da produção de aço eram estatais. Atualmente todas as empresas são privadas;
-    Em 2002 foram produzidas 29,6 toneladas de aço, correspondendo a 52,6% da produção da América Latina e 3,3% da produção mundial;
-    A capacidade instalada do setor é de 34 milhões de toneladas de aço bruto por ano e a meta é chegar a 39,9 milhões em 2007;
-    As indústrias siderúrgicas faturam anualmente US$ 9 bilhões e recolhem US$ 1,4 bilhões de impostos por ano;
-    O setor gera mais de 68 mil empregos diretos e quatro vezes mais em empregos indiretos.

Fusões e aquisições mudam o jogo de forças

A produção mundial de aço bruto bate recorde, a demanda por produtos siderúrgicos segue aquecida e os preços dos insumos, como minério de ferro e carvão, não apresentam grandes oscilações de anos anteriores, ou seja, nem aumentos na velocidade verificada em 2004, nem quedas aos níveis de 2001 e 2002. Boas notícias, não restam dúvidas, que permitem projetar um cenário bastante promissor para as siderúrgicas em 2007. Entretanto, o aspecto relevante que tem dominado o noticiário internacional diz respeito ao acelerado processo de consolidação do setor, deflagrado por uma onda de fusões e aquisições de grandes conglomerados, que chama a atenção por emitir sinais de que o jogo está apenas começando. No mercado predomina o consenso segundo o qual a siderurgia experimenta um novo ciclo de concentração, muito mais pujante do que o das últimas décadas, mas que está longe de atingir o ponto de maturação.

O tema da consolidação voltou à baila no setor siderúrgico com a incorporação pela Mittal Steel, um dos maiores nesse ramo de negócio, do grupo Arcelor, por € 25 bilhões. A operação, consumada em meados de 2006, deu origem à Arcelor Mittal, com produção de aproximadamente 110 milhões de toneladas de aço por ano, mais que o triplo da produção anual da segunda colocada no ranking dos fabricantes mundiais, a japonesa Nippon Steel, cujos volumes atingiram o patamar de 32 milhões de toneladas de aço, no ano passado. No Brasil, a Arcelor Mittal detém 66% da Arcelor Brasil, que controla as usinas Belgo, Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), Vega do Sul e a Acesita. Antes da Arcelor, porém, a Mittal já havia adquirido o grupo americano International Steel, por US$ 4,5 bilhões, em 2005.

Mais recentemente, o mercado foi sacudido com a notícia de outra incorporação. O grupo Tata Steel desembolsou o equivalente a US$ 8 bilhões pela anglo-holandesa Corus, assumindo, dessa forma, a quinta posição entre os gigantes mundiais do setor, com uma produção combinada de 23,5 milhões de toneladas de aço. À frente dela estão apenas a JFE, a Posco, a Nippon Steel e a Arcelor Mittal. O negócio precisa ser aprovado pelos acionistas da Corus, mas a direção da companhia recomendou a aprovação da oferta. No mercado circulam rumores de que a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a alemã ThyssenKrupp e o grupo russo Severstal, também interessados na Corus, poderiam cobrir a proposta do grupo indiano. “Estamos em um momento de consolidação da siderurgia, mas se compararmos com outros mercados, como o de mineração, por exemplo, o mercado siderúrgico é, ainda, pouco concentrado. É de se esperar, portanto, um avanço no processo de concentração”, avalia o economista chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Edgard Pereira.

O contexto mundial se apresenta favorável às fusões e aquisições. Elas estão acontecendo num momento em que a economia dá sinais de crescimento em 2006 e 2007, como indica o mais recente relatório semestral World Economic Outlook, do Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo o estudo, ao longo dos seis primeiros meses de 2006, o ritmo das atividades econômicas na maioria das regiões superou as expectativas, ampliando as projeções do crescimento do PIB mundial para 5,1% em 2006 e para 4,7% em 2007. “Teremos o quadriênio de mais forte expansão da economia mundial desde o início da década de 1970”, diz o relatório.



Nova distribuição regional

A consolidação dos grandes grupos internacionais será um dos fatores que irão determinar as tendências do mercado de aço para as próximas décadas e que poderá resultar em uma nova distribuição regional da produção, aponta um estudo elaborado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre as perspectivas para o setor siderúrgico brasileiro no cenário internacional. “Essas fusões estabelecem um novo paradigma no processo de desenvolvimento do setor, que está levando a uma reavaliação das estratégias de todas as grandes siderúrgicas mundiais”, reitera o presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Luiz André Rico Vicente.

O processo de consolidação tem como mote a busca por eficiência e racionalidade na produção de aço, capacidade de ajuste às flutuações de mercado e, conseqüentemente, a redução dos movimentos cíclicos que afetam o setor. Por isso, é uma tendência irreversível, diz o presidente do IBS, acrescentando que, com as fusões as indústrias ganham mais poder de negociação com os fornecedores e consumidores, dois elos da cadeia de valor que são fortemente concentrados.

As investidas da Mittal e da Tata Steel, embora não sejam as únicas, pois existem várias outras negociações em andamento ou planos de aquisições à vista, são emblemáticas. Elas representam a ascensão no mercado internacional de grupos privados originários da Índia, país que está emergindo como uma grande potência do aço, o que deve mudar a correlação de forças no setor. Ambas demonstraram o seu poderio econômico ao incorporar companhias européias e fincar posição entre os cinco principais fabricantes mundiais de aço.

No caso da Índia, esse movimento não chega a ser surpreendente, pois, como observa o coordenador do Fórum de Competitividade da Siderurgia, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Nilton Sacenco, “o país tem projetos de expansão bastante ambiciosos, apoiados pelo governo”. Um deles é o de internacionalização da sua indústria e o outro, de aumentar a produção de aço bruto para 100 milhões de toneladas por ano. Para se ter uma idéia do salto que se pretende dar nos próximos anos, os indianos terminaram o exercício 2005 com uma produção de 38,1 milhões de toneladas de aço bruto, o que representou um crescimento de 17% em relação ao ano anterior e rendeu, ao país, uma fatia de 3,4% do mercado mundial.


Expansão acelerada

A Ásia, por sinal, vive um momento excepcional a ponto de provocar mudança significativa na distribuição geográfica de Investimento Estrangeiro Direto (IEDI). Dados da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) indicam que nos anos 80, por exemplo, a América Latina e o Caribe respondiam por 67% do investimento externo realizado por países em desenvolvimento, enquanto a Ásia era responsável por 23%. Em 2005, a participação asiática evoluiu para 62% e a dos latino-americanos recuou para 25%. Vale ressaltar que o IED cresceu 29% em 2005, totalizando US$ 916 bilhões, impulsionado em parte pelas fusões e aquisições e pela crescente internacionalização de empresas oriundas de países em desenvolvimento, principalmente asiáticos. Da relação das cem maiores companhias transnacionais de países emergentes, entre elas figuram as siderúrgicas, os asiáticos são donos de dois terços.

O economista chefe do IEDI tem razão quando diz que novas fusões e aquisições devem ocorrer no setor em um ritmo bastante acelerado. A própria Arcellor Mittal planeja expandir ainda mais os seus negócios. O fortalecimento de suas posições na América Latina é uma das metas do grupo. Há conversas em andamento com o Grupo Villacero em torno da aquisição de uma de suas usinas instaladas no México, próxima da região onde está instalada a divisão de siderurgia Lázaro Cárdenas, da Mittal. A Argentina, o Brasil e os países da América Central também estão na mira do conglomerado. Para o mercado brasileiro, por exemplo, estão previstos investimentos da ordem de US$ 4,5 bilhões para aumentar a produção e construir uma nova usina na cidade de Vitória (ES), com capacidade produtiva de 4 milhões de toneladas de aços planos.

Já a Tata Steel integra a lista dos 15 grupos nacionais e internacionais que demonstraram interesse em participar do pólo mínero-siderúrgico projetado pela Rio Tinto, em Corumbá, Mato Grosso do Sul, cujo investimento é estimado em US$ 2 bilhões em quatro plantas industriais (de pelotização, ferro-gusa, redução direta do minério e aciaria) e em uma usina termelétrica, com capacidade para gerar 150 megawatts de energia. No México, a família Canales pagou o equivalente a US$ 1 bilhão por uma participação de 43% no grupo Imsa, a maior companhia processadora de aço daquele país, pondo fim aos planos da família Clariond de vender a totalidade da companhia. Agora, as duas famílias detêm 86% do controle da siderúrgica.


Rumo à internacionalização

A Tenaris, fabricante de tubos de aço sem costura, que pertence ao grupo argentino Techint, está perto de concluir a operação de compra da Maverick, dos Estados Unidos, que no exercício 2005 contabilizou vendas de ordem de US$ 1,8 bilhão. Em assembléia realizada no mês de outubro de 2006, os acionistas da companhia norte-americana votaram a favor da venda, por US$ 3,185 bilhões. O negócio pode render bons frutos. O grupo argentino, que vem expandindo a sua operação na América do Norte desde que abriu uma unidade fabril na região, em 2000, passaria a ter uma capacidade de produção de 2 milhões de toneladas de canos de aço por ano e vendas anuais estimadas em US$ 9 bilhões, dos quais 30% nos Estados Unidos e no Canadá. No primeiro semestre de 2006, a Tenaris registrou lucro líquido de US$ 937,4 milhões e vendas no valor de US$ 3,745 bilhões, o que representa um crescimento de 17,1%.

Os ventos da consolidação também sopraram entre as siderúrgicas brasileiras em um momento em que muitas empresas do país de diversos ramos de atividade econômica mudaram de postura no cenário mundial, ou seja, deixaram de ser meras exportadoras para fincar raízes em outros países. Nos Estados Unidos, a Esmark viu o seu plano de incorporar a também norte-americana Wheelling-Pittsburgh ser frustrado pela CSN. No final de outubro, a siderúrgica brasileira anunciou a conclusão do processo de fusão com a Wheeling-Pittsburgh, dando origem à NewCo. O negócio, que depende de aprovação dos organismos reguladores, dos acionistas e do sindicato, foi feito através da subsidiária CSN LLC, que terá 49,5% das ações da nova empresa. Essa participação poderá chegar a 64%.

A CSN LLC tem capacidade para produzir 1 milhão de toneladas de produtos decapados, laminados a frio e galvanizados por ano, enquanto a Wheeling-Pittsburgh tem capacidade para produzir 2,8 milhões de toneladas de placas por ano e 3,4 milhões de toneladas de laminados a quente por ano. Estão previstos investimentos de US$ 150 milhões na atualização e expansão da capacidade produtiva da nova empresa, para 4 milhões de toneladas por ano. A fusão prevê, ainda, a instalação de uma segunda linha de galvanização nas plantas da CSN. Uma sociedade com a chinesa Baosteel também faz parte dos planos da CSN.

Companhia brasileira com mais alto grau de internacionalização, segundo ranking das 24 empresas com operações lá fora, da Fundação Dom Cabral, a Gerdau, que possui aproximadamente 30 unidades na América do Norte e do Sul, além de participações na Espanha e nos Estados Unidos, estuda a possibilidade de aumentar ainda mais a sua presença no mercado externo. O negócio envolvendo a siderúrgica peruana Siderperu, no início de 2006, e a intenção em adquirir 43% das ações da usina Acerías Paz del Rio, da Colômbia, devem encerrar o ciclo de aquisições na América Latina.

Segundo declarações de Jorge Gerdau Johannpeter, a companhia busca, agora, oportunidades de negócio na Ásia, em particular no mercado chinês, e na América do Norte. A produção de aço bruto na região asiática somou 477,2 milhões de toneladas entre janeiro e setembro de 2006, ante as 421,8 milhões de toneladas produzidas no mesmo período do exercício passado. Só a China respondeu por 64,6% do total, o equivalente a 308,4 milhões de toneladas no acumulado dos nove meses de 2006. Na América do Norte as aquisições já estão em curso. A Gerdau Ameristeel Corporation adquiriu uma participação acionária na joint venture firmada entre a Pacific Coast Steel (PCS) e a Bay Área Reinforcing (BAR), que operam quatro unidades de corte e dobra de aço na Califórnia, Estados Unidos, que somam uma capacidade instalada superior a 200 mil toneladas por ano. O valor da transação é estimado em US$ 104 milhões.

O ano de 2006 foi bastante movimentado no que diz respeito às fusões e aquisições, o que demonstra que o tema da consolidação definitivamente entrou na ordem do dia para a siderurgia. Os resultados para o mercado de todas essas iniciativas em curso ainda é difícil prever, tampouco é possível estabelecer a correlação de forças no novo tabuleiro que está sendo montado. A única certeza é que operações do gênero tendem a seguir em um ritmo bastante acelerado.